sábado, 9 de junho de 2012

(In) Filtrações...

(...) Sem apego. Sem melancolia. Sem saudade. A ordem é desocupar lugares. Filtrar emoções.

Caio Fernando de Abreu
















                                                                                 ...UMA PENA QUE NÃO CONSIGO FILTRAR VOCÊ... E OLHA QUE AS VEZES, EU TENTO...


Culpado





DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça. 


Hilda Hilst





quinta-feira, 7 de junho de 2012

Mente insana...Corpo sem assunto...



(...)

O corpo e a mente
têm biografias separadas,
cada um sua memória própria,
seu próprio jogo de charadas,
Meu corpo tem lembranças
- cheiros, tiques, andanças -
que a mente não registrou
e o corpo não tem as marcas
de metade do que a mente passou
(Pior que uma mente insana
num corpo sem muito assunto
é um corpo que já foi ao Nirvana
sem que a mente tenha ido junto.)

(...)

Luís Fernando Veríssimo

Lembranças e Covardia...



Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente? 
Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia –qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou "quase" certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu "quase" tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros! Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe!

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Teatro mágico...de alegorias...

A esperança



injeta sangue
no meu coração,
enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar,
servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesar...
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
e alegorias,
malabares dar-vos-ei
em versos...
Eu amei...
mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?

Vladimir Mayakovsky

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Desconhecido...de mim.



Não sei fingir emoções, não sei esconder o que sinto,

não sei falar do que não me toca, não sei NÃO falar do que me toca... 

Sou toda histérica, tenho um corpo que fala por mim.

Não sei me fazer de forte, não sei estancar ferida. 

Minha carne grita, minha dor vaza, 

meu olhar implora. Me esparramo pelos olhos, 

impossível não me ler. 

Mas tem sempre um ponto onde me escapo, 

alguma coisa de ilegível e inalcançável,

estranho e misterioso que me faz desconfiar de que seja justamente 

neste estranho encontro com o desconhecido de mim
que eu surja de verdade.

(Sophia Compeagá)

Andar...água e ar




M.C. Escher, Ar e Água I, xilogravura, 1938, 44 x 44 cm

Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. Por que
havemos de ser unicamente
humanos, limitados em chorar?
Não encontro caminhos fáceis
de andar. 
Meu rosto vário
desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar.

Cecília Meireles

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